MÓDULO I

Tudo se move

ou O Corpo Poético

„Quando o corpo está preparado chega a palavra“

Ariane Mnouchkine

Esta oficina é uma imersão no mundo da criação. O corpo é a base primária, o ponto inicial de toda performance.
Os participantes se conscientizam da totalidade do engajamento de seus corpos como ferramenta do jogo e instrumento principal para a performance artística. Eles compreendem e experimentam a possibilidade de utilizar integralmente seus corpos para se expressar. Privilegiamos sempre a qualidade do trabalho e a observação do grupo e sua assimilação de conteúdo de cada fase e, não somente, a aplicação da quantidade de material pedagógico proposto.
Como posso expressar fortes emoções sem me sentir ridículo?
Como eu posso utilizar meu corpo para criar e explorar sentimentos e construir personagens em toda a sua complexidade psicológica e física, sempre a partir de uma perspectiva do corpo?
Para responder a estas questões propomos um programa muito denso e seu desenvolvimento dependerá, também, do nível do grupo e sua aplicação no trabalho. Esta oficina oferece três bases sólidas através dos módulos seguintes:

1. O Silencio

Exploramos a linguagem física do cotidiano: partimos à redescoberta de nossa própria infância e experimentamos exercícios como ‘a redescoberta do quarto da infância’, exercício que propicia a conexão com esse tempo em que éramos todos instintivamente atores. Trata-se do jogo concreto, sem psicologismos. Entendemos assim as equivalências da vida real transposta à ação cênica: uma passagem obrigatória no jogo teatral de investigação da vida real para ancorar o “jogo Cênico”. A pura repetição da realidade certamente não vale a pena ser visto no palco, mas é fundamental entender como utiliza-la e transforma-la em arte.

2. A Máscara neutra

O processo é direcionado à compreensão e prática da Máscara Neutra. Os alunos aprendem como sentir e transpor fisicamente a experiência com a Máscara.
O trabalho da Máscara Neutra permite ao ator encontrar o ponto zero de tudo e para cada coisa, o ponto de partida essencial. O mínimo necessário onde tudo se torna possível.
Esta máscara nos permite nos desligar da vida cotidiana e abrir as portas para a verdade teatral. Nós entendemos o que é não fantasiar, mas imaginar, o que faz o corpo reagir, o corpo responde/reflete o que vê, num ponto intermediário entre ver a coisa e ser a coisa que vê: vejo o mar, mas sou também o mar. É a máscara que nos separa da vida cotidiana e é através delas que as portas do teatro se abrem. Ao ‘‘olharmos com a máscara neutra’’ buscamos as ações necessárias essenciais do que deve ser feito no palco para contar uma história.
O treinamento intensivo com  Adriana Salles e sua técnica « Máscara Negra » desenvolve plenamente esta fase.

3. Como Identificações

Esta abordagem é frequentemente utilizada por diretores formados ou admiradores desta pedagogia: compreender o mundo imitando-o.
Como as crianças que, para compreender o mundo, interpretam o universo que as cerca. Então, podemos dizer que as crianças descobrem o mundo através do jogo e que os atores fazem o caminho inverso, eles descobrem o jogo através do mundo.
Procuramos a dinâmica interna das coisas que nos cercam através do nosso corpo. Não como uma ilustração, como uma pantomima, mas buscando a compreensão fundamental  dinamizadora do elemento estudado em questão.
Como posso ser uma folha de papel caída no chão ou ser uma folha despedaçada? Este trabalho nos permitirá estabelecer uma relação direta com as grandes emoções, como as da tragédia grega, por exemplo.
Descobrimos assim elementos, como: as cores, a pintura, a poesia, a música. Analisamos igualmente o mundo selvagem e animal como referência para a construção de personagens.

4. Máscaras inteiras: expressivas e larvárias.

Nesta fase, nós exploramos o comportamento nada inocente das máscaras de carnaval de Bâle na Suíça, conhecidas como máscaras larvárias. Estas máscaras estabelecem a conexão perdida entre os animais e os seres humanos. Assim como as crianças durante a fase da primeira infância inocentes e curiosas, estabelecem jogos ativos e concretos através da máscara neutra, com a máscara larvária questiona-se sobre a animalidade e o jogo com os objetos cotidianos. Observamos as relações entre as máscaras e propomos jogos entre elas.

5. “Analise de movimento”

Existem 20 sequências distintas de movimentos que nós estudamos a parte, assim como no teatro oriental. É um trabalho contínuo que atravessa todos os outros módulos evocados.
Nosso corpo é o principal meio de compreender a vida cotidiana.  É a estrutura que nos permite penetrar na dinâmica interior que nos cerca. Não se trata de um trabalho ilustrativo, tampouco de pantomima, mas de experimentar o motor ativo das coisas, suas dinâmicas elementares que são invisíveis aos olhos, mas perceptíveis a todos. Analisamos como transmitir este movimentos fisicamente e o que nos interessa é, sobretudo, colocar as experiências em “jogo”.